quinta-feira

After pain!

Telefone:
- Sr. Roberto, meu nome é Vanessa! Aqui é do RH da Top Engenharia e estou com seu currículo em mãos. Gostaria de estar marcando uma entrevista com o sr., caso se interesse!
- Olha sra. Vanessa..
- Senhorita, por favor!
Deve ser pegadinha.
- Tudo bem, senhorita Vanessa! Mas eu não conheço sua empresa. Na verdade, nunca deixei currículo nenhum aí.
- Bom, ele está aqui sobre minha mesa. Mas não há problemas se não tiver interesse...
- Não, não! Tenho sim! Quando gostaria que eu fosse?
- Precisamos preencher o cargo o mais rápido possível! Poderia estar aqui amanhã às nove?
- Claro! Pode me passar o endereço?
Tomara que não seja uma pegadinha.


Volto para o apartamento do Willian. Preciso passar meu terno, que ficou amarrotado dentro da mala. Tanta consideração de uma ex-mulher! Wil não chegou do serviço. E provavelmente quando chegar terá coisas mais importantes para fazer. Como "relaxar". Will sempre foi como um irmão para mim. Bem, não como o meu irmão. Mas melhor: companheiro, não rasga muito para as coisas. Me aceitou aqui por uns tempos como se eu não precisasse pedir.
- ... e foi isso que aconteceu, cara!
- Não esquenta, Bob! Tu pode ficar aqui o quanto quiser, tá ligado?
- Poxa, Will. Muito obrigado mesmo! Olha, eu queria te pagar nem que seja um pouco...
- Qualé, cara?! Assim tu ofende! Tu sempre foi meu brother! Sei que faria o mesmo por mim.
Será? Willian viveria na rua, mas não aceitaria ficar na minha casa sem seu baseado! E Júlia tomaria veneno antes de permitir que fumassem em casa. Sentimento de culpa.
- Mais uma vez, valeu Will! Assim que eu regularizar minha situação financeira, vou te devolver o sossego!
- Tranquilo, parceiro! Agora pega essa ponta aí na mesa para mim...
Isso foi anteontem. Hoje, rodei toda cidade à procura de ocupação. O telefonema foi uma surpresa muito bem-vinda!

Na cozinha do apartamento, as baratas fazem a festa! Vou dar um jeito de lavar essas vasilhas! Mas antes o terno! Onde diabos Will guarda esse ferro de passar?


Uma hora depois, ele está de volta! Os velhos olhos vermelhos voltaram...tenho vontade de rir!
- Pô, cara! Você tem um ferro de passar?
- Ihhh!
- Cara, de boa: você não passa suas roupas? - pergunto rindo.
- Fica frio! Pede a guria aí do lado que ela empresta tranquilo! Vai passar roupa agora é?
- Vou! Entrevista amanhã! Talvez você se livre de mim mais rápido do que pensa...rs!
- Se você também quiser passar minha roupa e fazer o rango, pode ficar mais tempo de boa!
Rssss....que filho da puta esse Willian.
- É por isso que mulher nenhuma te aguenta, seu viado!

Deitado no sofá, volto a pensar na entrevista do outro dia.Top Engenharia..Não consigo mesmo me lembrar dessa empresa. Numa cidade tão grande, isso não é anormal. Devo ter outro bom amigo em algum lugar.
Durmo ouvindo Willian desafinado em sua viagem.

terça-feira

The last day!

O pequeno relógio marcava sete da manhã quando abri os olhos. Olhei para o lado, ela já havia saído. Antes, havia um beijo de despedida ao partir para o trabalho. Agora não há hora para voltar. Na última vez em que ela chegou cedo, eu não estava em casa: nenhuma pergunta, nenhum questionamento. Não sei como me importo ainda com isso. Há muito já sabia como as coisas iam terminar.
Na porta da geladeira uma recepção, ainda que fria. Pague o aluguel - diz o bilhete. Como se eu precisasse de lembretes! Procuro embaixo da pia alguma garrafa que ainda não esteja vazia, mas lembro-me da entrevista às nove. Tenho ainda pouco mais de uma hora e meia para fazer a barba e chegar à cidade. Se o trânsito não estiver o caos de sempre, há tempo. Ainda tenho o hábito de ser otimista, mesmo quando as coisas vão de mal a pior.
O entrevistador me diz que não tenho o perfil necessário para o cargo! Como se um desenhista precisasse de algum perfil. Tenho vontade de lhe perguntar isso: vocês precisam de um robô? Sou burro demais? Inteligente demais? Psicólogos, o que sabem de trabalho? Quero falar com o gerente do setor. Me tragam um matemático, não um filósofo. É sempre assim: uma entrevista de capacidade se transforma em um julgamento de caráter. Mas eu ainda sei dançar a música! Agradeço a oportunidade, já pensando na cara dela quando souber. Hoje realmente não é meu dia!


Dona Tereza ao telefone.
- Como foi na entrevista?
- Que entrevista? - respondo. Ela não percebe a ironia.
- Não se faça de idiota, Roberto!
- Não estou me fazendo, mãe. Mas gostaria que você e a Júlia parassem de ficar me cobrando tanto.
- Então arrume outro emprego logo. Não é atitude de homem viver às custas da mulher. Você deveria amadurecer, veja o exemplo do seu irmão...
- Tchau, mãe!
É. Ela vai ligar para a Júlia e dizer que sou um bruto mal-educado. Mas prefiro isso a ter que escutá-la. E não vivo às custas de ninguém. Na verdade, nem sei se estou vivendo.


Seis da tarde e mais uma surpresa. Júlia já está lá quando chego. Ela me olha da porta do banheiro e abaixa a cabeça. Entra no banheiro com uma toalha. Estranho! Não é do feitio dela correr assim, sem um olhar desafiador. Eu me sento no sofá e ligo a tevê. Não presto atenção em nada, mas prefiro o som ao silêncio. Quinze minutos depois ouço-a saindo do chuveiro. Aparece vestida na sala e me diz:
- Precisamos conversar!
Já havia esquecido dessa frase. Mostro a poltrona frente a mim, mas ela não senta. Ao invés, começa a andar para a cozinha, como se fosse buscar algo. Sem me encarar, diz:
- Não dá mais, Roberto! Acho que é besteira a gente fingir que está tudo bem!
Tenho vontade de dizer alguma coisa, mas permaneço calado. Isso parece a encorajar.
- Você sabe! Está parado a dois meses, começou a beber, não está correndo atrás do prejuizo. Isso não é vida que se leve! Está sendo irresponsável e não liga a mínima. Eu não aguento mais!
Em primeiro lugar - resolvo responder - não estou desempregado porque quero...
- Você largou um emprego ótimo! - ela me corta.
- Em segundo lugar - eu a ignoro - Você fala como se eu bebesse até cair, como se a machucasse, ou como se eu andasse de bar em bar embriagado! Em terceiro lugar, eu te sustentei por cinco anos, lembra-se? Ou você se esquece de quando fazia faculdade e ganhava R$200,00 reais naquele subemprego de quatro horas diárias?
- Aquilo era um estágio que eu precisava para a faculdade! E isso não é desculpa para você agir assim hoje! Eu estou trabalhando para pagar as contas, enquanto você vive enfurnado naquele quarto e não sai do computador. Você não se preocupa nem mesmo com sua mãe!
Estava demorando para ela colocar minha mãe no meio. Eu começo a perder a paciência.
- O que minha mãe tem a ver conosco? Você conversa mais com ela que comigo. Por que não experimenta ser clara ao menos uma vez na vida, Júlia? Quer terminar comigo? Termine, mas não minta para mim. Há mais de um mês você tem me evitado. Não use outras coisas como justificativas!
Ela pensa em retrucar, mas agora é sua vez de ficar calada. Eu reparo que não olhou novamente na minha cara desde que disse que precisávamos conversar. Vou até a cozinha pegar um copo d'água e, ao passar por ela, me diz:
- Eu tenho outra pessoa.
Não estou surpreso em ouvir isso. Mas fico surpreso ao saber que me magoa. Eu desconfiava, ainda que não dissesse nada. Mas bem no fundo, achei que ela não fosse capaz de fazer isso.
- Eu resolvi ficar com ele, Roberto!
O que dizer nessas horas? Desisto da água e caminho para o quarto. Na cama, minhas malas estão arrumadas. Ela pensou em tudo.
- O que é isso? - pergunto.
- Eu te disse que não dá mais! Não dá para continuarmos vivendo na mesma casa!
- Então você acha que eu é quem devo sair?
- Vai fazer o que? Vai pagar as prestações como? Eu conversei com sua mãe. Ela disse que você pode ficar lá por alguns dias!
Agora sim me irritei. Quem essas duas pensam que são? Acham que podem brincar com minha vida? Mas não vou ficar aqui discutindo. Na verdade, eu nem deveria ter conversado com ela. Devia simplismente ter aceito calado.
- Você entende que a culpa é sua, não entende? Entende que não dá mais para nós! Não desse jeito!
- Não me enxe! - respondo. É melhor eu sair antes que resolva esganá-la. Eu me contenho.
- Está vendo? É sempre esse tipo de atitude. Você não sabe nem mesmo conversar civilizadamente!
Pego minhas malas. No caminho para a porta, ela diz:
- Você não precisa sair assim. Tome um banho antes! Ao menos saia mais arrumado. E não se esqueça de deixar a chave da porta!
- Vá se foder!


Liigo para o Willian. "Estou precisando de um favor seu!", digo.


Uma hora depois, estou deitado num sofá puído. Meu amigo Willian está no quarto, acendendo seu baseado de costume. Eu abro a bolsinha da mala e encontro uma conta de telefone à pagar. Tenho vontade de rir! Mas eu prefiro fechar os olhos e esquecer.